A Mercedes-Benz, sendo uma marca premium, nem sempre desenvolve todos os componentes internamente — isso é caro e nem sempre se justifica em versões de nicho ou mais acessíveis.

A Mercedes-Benz está tradicionalmente associada ao segmento premium, à sofisticada engenharia alemã e a um elevado nível de independência de desenvolvimento. No entanto, mesmo uma marca desta dimensão nem sempre considera rentável criar todos os componentes de raiz — especialmente quando se trata de versões de nicho ou mais económicas dos seus veículos. Desde 2010, a empresa assinou um acordo bastante abrangente com a Aliança Renault-Nissan-Mitsubishi. Através desta parceria, alguns modelos compactos da Mercedes e carrinhas comerciais selecionadas receberam motores fabricados em França.

A justificação por detrás do acordo foi bastante pragmática: reduzir significativamente os custos de desenvolvimento e certificação de motores pequenos sem perder a imagem da marca ou comprometer o desempenho de condução. A Renault, por sua vez, obteve acesso a diversas tecnologias avançadas da Mercedes (incluindo determinadas tecnologias de segurança, transmissão e eletrónica). Os próprios motores sofreram modificações significativas: o software de controlo, os sistemas de admissão e de escape e os acessórios foram alterados, e o isolamento de vibrações e ruído foi reforçado — tudo para cumprir os rigorosos requisitos da marca em relação ao conforto, fiabilidade e normas de emissões (a partir do Euro 6).

A Renault-Nissan forneceu motores a gasolina e diesel de 3 e 4 cilindros (principalmente famílias de 1.2 a 1.6 litros), enquanto a Mercedes adaptava esses propulsores com calibrações próprias, novos sistemas de admissão/escape, reforços em periféricos (bombas, alternadores, suportes), software de gerenciamento eletrônico e materiais que reduzissem vibrações e ruído — tudo para manter o padrão “Mercedes” de refinamento. Em troca, a Renault ganhou acesso a tecnologias avançadas da Mercedes (incluindo know-how em transmissões, segurança e alguns componentes elétricos), e a Daimler passou a usar plataformas da aliança em modelos compactos smart e alguns Renault/Twingo.

O resultado mais visível para o público foram os motores M282 (gasolina 1.3 turbo) e OM608 (diesel 1.5), que equiparam diversos compactos Mercedes entre 2018 e meados dos anos 2020.

Principais motores Renault usados pela Mercedes

Motor a gasolina 1.3 turbo (código Mercedes M282 / Renault H5Ht) Esse é o caso mais emblemático e duradouro da parceria.

  • Potências comuns: 136–163 cv (A 200, GLA 200 etc.), chegando a 224 cv em versões mais potentes com híbridos leves.
  • Características: injeção direta, turbo, cadeia de distribuição, bloco de alumínio.
  • Produção: em grande parte na Alemanha (fábrica MDC Power em Kölleda), com calibração e montagem final Mercedes.
  • Consumo real: geralmente 6–7,5 l/100 km em uso misto, dependendo do modelo e estilo de condução.
  • Confiabilidade: considerada muito boa quando bem mantida (troca de óleo a cada 10–15 mil km com óleo correto 0W-20 ou 5W-30 de especificação Mercedes). Problemas raros envolvem a correia de acessórios ou sensores, mas nada sistemático. Muitos donos relatam que o motor é suave, silencioso e econômico — qualidades que a Mercedes soube extrair muito bem da base Renault.

Motor diesel 1.5 dCi (código Renault K9K / Mercedes OM608)

  • Potências: 95–116 cv (A 180 d, B 180 d, CLA 180 d etc.).
  • Consumo: impressionante 4,5–5,8 l/100 km em estrada.
  • Usado principalmente entre 2018 e 2020–2022 (depois foi substituído pelo OM654 próprio da Mercedes em muitos mercados).
  • Vantagens: durabilidade alta (muitos exemplares passam de 300–400 mil km com manutenção regular), peças baratas e rede de assistência ampla (graças à Renault).
  • Desvantagens percebidas: vibração e ruído um pouco maiores que os diesel Mercedes puros, embora as adaptações tenham melhorado bastante.

Modelos Mercedes que usaram (ou ainda usam) motores Renault

A-Class (W176 — segunda geração, até 2018) Versões diesel A 160 d, A 180 d → motor 1.5 dCi / OM607 ou OM608. Alguns gasolina iniciais também tiveram influências.

  • A-Class (W177 — terceira geração, 2018–2025) Gasolina: A 180, A 200, A 220, A 250 e (M282). Diesel: A 180 d (OM608 até ~2021). Esse foi o modelo que mais popularizou a parceria.
  • B-Class (W246 e W247, até 2025) B 180, B 200, B 220, B 250 (M282). Diesel B 180 d (OM608 nas primeiras unidades).
  • CLA (C117 e C118/C119) CLA 180, CLA 200, CLA 220, CLA 250 (M282). Diesel CLA 180 d / 200 d (OM608 no início).
  • GLA (H247, segunda geração) GLA 200, GLA 250 e (M282). Diesel GLA 180 d (OM608 até ~2021–2022).
  • GLB (X247) GLB 200 (M282 nas versões de entrada).
  • Citan (W415, desde 2012) Furgão derivado diretamente do Renault Kangoo. Todas as versões diesel (108 CDI, 110 CDI, 112 CDI etc.) usam o 1.5 dCi. Produção terminou em 2026, sem sucessor direto com motor Renault.
  • Vito (primeiras gerações pós-2010) Algumas versões básicas de entrada tiveram diesel Renault 1.6 dCi, mas rapidamente migraram para OM651 e OM654 próprios.

Por que a parceria acabou (ou diminuiu tanto)?

A partir de 2023–2025, a Mercedes começou a substituir esses motores por opções próprias ou de novos parceiros:

  • Novos motores a combustão desenvolvidos internamente (família OM654q diesel, gasolina M254/M139 etc.).
  • Parceria com a Aurobay (joint-venture Geely-Volvo) para motores híbridos e gasolina eficientes.
  • Foco total em eletrificação: MMA (nova plataforma modular para compactos), MB.EA, vans elétricas etc.

Em 2026, praticamente não há mais motores Renault em modelos de passageiros Mercedes novos. O Citan foi o último “reduto”, mas saiu de linha. A transição reflete a estratégia da marca: manter o controle total sobre a cadeia de propulsão em um mundo cada vez mais elétrico e regulado.

Vantagens e desvantagens para o dono de um Mercedes com motor Renault

Vantagens

  • Preço de compra mais acessível (modelos de entrada).
  • Consumo e emissões muito competitivos.
  • Peças e manutenção baratas (muitas compatíveis com Renault, rede ampla).
  • Confiabilidade geral boa, especialmente o 1.3 M282.

Desvantagens

  • Algum preconceito (“Mercedes com motor Renault?”).
  • Revenda pode ser um pouco mais difícil em mercados muito “puristas”.
  • Sensação de refinamento ligeiramente inferior aos motores 100% Mercedes (embora a diferença seja pequena após adaptações).

Conclusão

A colaboração Mercedes-Renault foi uma decisão pragmática e bem-sucedida em seu tempo (2010–2025). Permitiu à Mercedes entrar com força no segmento compacto premium sem custos proibitivos, ao mesmo tempo que ajudou a Renault a ganhar credibilidade tecnológica. Modelos como A 200, GLA 200 e CLA 200 com o 1.3 turbo são, até hoje, opções muito equilibradas no mercado de usados — econômicos, confortáveis e com boa durabilidade.

Em 2026, porém, essa página está virando. A Mercedes foca em propulsão própria, híbrida e elétrica, enquanto a aliança com a Renault se dissolveu no segmento de passageiros. Para quem procura um Mercedes usado acessível e eficiente, os exemplares com motor M282 ou OM608 ainda valem muito a pena — desde que com histórico de manutenção em dia.

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